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Estudos na Bíblia Hebraica por
Irrael Baboni Cordeiro de Melo Junior está licenciado sob uma atribuição Creative Commons - Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.

No primeiro livro da Bíblia Hebraica, o Bereshit (Gênesis), encontramos dois relatos da criação do ser humano. O primeiro está em 1:26-27 (colocado pelos estudiosos como sendo de tradição sacerdotal) e o segundo em 2:7, 18, 21-23 (indicado como tradição javista). A partir de ambos, discorrerei brevemente para tratar da seguinte questão: Há alguma possibilidade de diferença de status entre o gênero masculino e feminino sugerido nos relatos de sua criação?

No primeiro relato da criação do ser humano[1] (Gn 1:26), D´ cria homem e mulher[2] (Gn 1:27), abençoando-os e os incubindo de igual maneira a povoar e dominar a terra, não havendo aí indicação alguma de diferença de status entre os dois.

Semelhantemente, o segundo relato da criação do ser humano (Gn 2), que é mais detalhado, após formar o homem a partir da argila do solo[3],forma a mulher a partir de uma das costelas do homem[4] (Gn 2:21). Este termo empregado para designar o lado do homem, parece ser empregado para descrever a profunda proximidade entre o homem e a mulher ao estarem em pé de igualdade perante D´, já que o homem se refere à mulher recém-criada como “osso de meus ossos e carne de minha carne”[5] (Gn 2:23). Este trecho também comunica um relacionamento próximo e íntimo que o homem não poderia encontrar longe de alguém que compartilhava de sua condição e natureza, já que D´ reflete no texto o desejo de prover o homem de uma companheira que seria sua consorte intelectual e física.

Além disso é importante ressaltar que o texto não trata a mulher como uma mera extensão do homem, mas possuidora em si mesma de uma individualidade única, não havendo indicação de que seja inferior. Por outro lado, visto que seu corpo foi feito a partir do homem, existe uma continuidade entre os dois de forma que a realização completa se dará somente no relacionamento profundo entre os dois, ou seja, na união que remonta à criação dos dois, quando se tornam novamente uma só carne[6] (Gn 2:24).

É importante notar como o status do homem e da mulher parece ser de certa forma alterado após o advento do pecado, analisando em Gn 3:16, onde D´ assim descreve a conseqüência do pecado a ser cumprida pela mulher “teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará”[7]. Isso parece reafirmar que no momento da criação, a condição ou o estado da mulher é equivalente ao do homem.

Por Irrael B. C. Melo Jr.

Texto elaborado tendo como base as aulas da disciplina Cultura de Israel na Antigüidade, ministradas pela Profª Drª Suzana Chwarts, do Departamento de Letras Orientais da USP, no ano de 2005.

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Notas

[1] אָדָם
[2] זָכָר וּנְקֵבָה
[3] אֲדָמָה
[4] אַחַת מִ‍צַּלְעֹתָיו
[5] עֶצֶם מֵ‍עֲצָמַי וּבָשָׂר מִ‍בְּשָׂרִי
[6] וְהָיוּ לְבָשָׂר אֶחָד
[7] וְאֶל־אִישֵׁךְ תְּשׁוּקָתֵךְ וְהוּא יִמְשָׁל־בָּךְ

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Respostas na Bíblia Hebraica I  

Postado por Irrael B. C. Melo Jr em , ,

Caros amigos leitores deste blog, gostaria de agradecer as visitas e comentários que tenho recebido nestas primeiras semanas do Blog Estudos na Bíblia Hebraica.

Tenho percebido que algumas pessoas têm enviado perguntas e solicitações através dos comentários, por isso decidi começar a responder em minhas postagens com artigos bem objetivos às principais questões levantadas.

Por isso peço que continuem enviando perguntas através dos comentários e eu farei o possível para atendê-los de acordo com meu tempo e dentro do meu campo de conhecimentos.

Sendo assim, selecionei a primeira questão para inaugurar esta seção de perguntas e respostas:

Prezado Senhor Irrael,
Primeiramente quero parabenizá-lo por este blog, pois o mesmo é uma fonte riquíssima para estudiosos agregarem conhecimentos Bíblicos.
Irrael, eu sei que você dever ser uma pessoa muito ocupada, mas caso você possa me ajudar, eu desejo fazer a você a seguinte pergunta: No Hebraico Bíblico o trecho do versículo de Ageu 2.7 que diz “virá o Desejado das nações” refere-se a uma profecia messiânica a respeito da vinda de Cristo ou não?
Minha dúvida a este respeito veio após eu ler esse versículo em diferentes versões, pois algumas versões fazem entender "O Desejado" como sendo o Messias, já outras como se fossem riquezas das nações. Assim, como não encontrei nenhuma literatura confiável que possa esclarecer esta minha duvida, recorro ao seu notável saber da língua hebraica para que, caso possa, me informar a respeito.
Desde já, meu muito Obrigado.
Gleison.


Gleison, primeiramente muito obrigado pelo incentivo à este blog e ao meu trabalho.

Neste caso de Ageu 2:7, a palavra traduzida em algumas versões como ”riquezas” e outras como “Desejado”, em hebraico é חֶמְדַּת, transliterada, hemdat, que seria o adjetivo singular de algo precioso ou desejável.

Certo, até aqui as duas opções seriam possíveis, então vamos analisar outra palavra ligada à esta na frase, וּבָאוּ, transliterada, uvau, que significa “e virão”, portanto, a conjunção + verbo no plural.

Desta forma temos aparentemente um certo problema, pois o verbo está no plural, mas o sujeito no singular, veja:

וּבָאוּ חֶמְדַּת, (uvau hemdat) que traduzindo literalmente, ficaria “e virão a preciosidade” ou “e virão o desejo”.

Os estudiosos argumentam, para responder à esta questão, que hemdat é singular, mas assume um significado de coletivo por estar com seu verbo no plural, assim pode ser traduzido como “e virão os desejos” ou “e virão as preciosidades”. Assim, a maioria das traduções mais aceitas traduzem preciosidades ou riquezas devido ao contexto do verso seguinte (2:8), onde aparecem referências à ouro e prata.

Mas e as versões que traduzem este trecho como “e virá o Desejado”, sugerindo uma profecia messiânica?

Neste caso é necessário primeiro entender que toda tradução, ao escolher palavras para traduzir um texto do original está, invariavelmente, fazendo uma exegese, e esta exegese estará, de forma proposital ou não, imbuída da ideologia e visão de mundo do tradutor. São Jerônimo, que traduziu o chamado Antigo Testamento (Bíblia Hebraica ou Tanakh) direto do hebraico para o latim, na chamada Vulgata (que também inclui o Novo Testamento cristão), ao se deparar com estas e outras questões levantadas pelo livro de Ageu, optou por traduzir o trecho da seguinte maneira: “et veniet Desideratus”, ou seja, “e virá o Desejado”, fazendo uma clara alusão ao Messias.

Considerando que a Vulgata foi a única tradução usada pela igreja católica na liturgia durante muitos séculos, e mesmo depois foi muito usada como ajuda ou fonte nas traduções da Bíblia para várias línguas, esta interpretação da profecia se propagou e foi defendida por personagens importantes, como por exemplo Martinho Lutero, e encontra adeptos até hoje. Porém é importante frisar que nos meios acadêmicos esta visão encontra-se quase abandonada.

Por Irrael B. C. Melo Jr.

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Bibliografia

BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, 2003.
SMITH, R. L. Word Biblical Commentary : Vol. 32: Micah-Malachi (electronic ed.). Logos Library System; Word Biblical Commentary. Dallas: Word, Incorporated,1998.


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